A evolução do cérebro

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Na era da informação, em que a tecnologia assume um papel tão predominante, é frequente nos depararmos com a comparação entre a ‘máquina pensante’ que chamamos de computador e o cérebro humano. Na comparação, o cérebro corresponderia ao hardware, o equipamento físico que nos permite processar os sinais externos e transformá-los em ações e pensamentos.

A mente, por sua vez, seria o software, o programa que põe o cérebro para funcionar e que consiste de uma série de códigos que resultam em comandos destinados à realização de alguma operação, alguma tarefa. Evidentemente, quanto melhor nosso programa mental, mais recursos teremos para realizar nossos propósitos.

Finalmente, o usuário seria cada um de nós, os seres conscientes, que determinam qual parte do programa utilizar e para qual finalidade. E assim como um usuário com amplo conhecimento de informática é capaz de tirar o melhor de um software, quanto mais conscientes formos, melhor será o uso que poderemos fazer deste nosso instrumental biológico.

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Para usarmos mais plenamente todas as possibilidades de nosso hardwar e software, precisamos desenvolver uma visão holográfica, a fim de evoluirmos para um estágio mais integrador de nossas habilidades enquanto seres conscientes. Para tanto, é preciso entender um pouco melhor a estrutura e o funcionamento do nosso cérebro, conforme descrito pela ciência médica.

O cérebro humano, que em seu conjunto pesa cerca de um quilo e meio, evoluiu ao longo de milhões de anos, crescendo “de baixo para cima, os centros superiores desenvolvendo-se como elaborações das partes inferiores, mais antigas.”, conforme afirma Daniel Goleman em Inteligência Emocional The Triune Brain in Evolution, chamou de ‘cérebro trino’, visto que estas estruturas funcionam como uma unidade interdependente e interinfluente.

Diretor do Laboratório de Evolução e Comportamento Cerebral em Poolesville, Maryland, MacLean teorizou que estes três cérebros operam como “três computadores biológicos interconectados, cada um com sua inteligência especial, sua própria subjetividade, seu próprio senso de tempo e lugar e sua própria memória.” Ele se refere a estes três cérebros como neocórtex (ou cérebro neomamífero), límbico (ou paleomamífero) e cérebro reptiliano, (o tronco encefálico e o cerebelo).

Apesar de cada um destes três cérebros aparentemente operarem como um sistema cerebral próprio, com capacidades distintas, eles estão todos conectados por meio de nervos, razão pela qual nosso cérebro funciona como uma unidade integrada, apesar de conter muitas partes diferentes.

Mesmo que uma atividade envolva uma estrutura especializada específica, ela envolve automaticamente o resto do cérebro, de modo periférico. Todas as partes agem como suporte, ao mesmo tempo em que registram ou imprimem a essência geral da ação. Por isto, temos um desenvolvimento contínuo e uma continuidade, um cérebro-mente que mantém sua integridade enquanto se expande continuamente.

1. Cérebro reptiliano

O cérebro reptiliano é a parte mais antiga do cérebro. Composto pelo tronco encefálico, que surge da medula espinal como uma haste, e pelo cerebelo, é responsável pelo comportamento instintivo, ou seja, pelas funções sensório-motoras, pelo controle dos reflexos e das funções automáticas como o batimento cardíaco e a pressão sanguínea, pelos movimentos e pelas funções viscerais de digestão e excreção.

Afirma Goleman que “não se pode dizer que esse cérebro primitivo pense ou aprenda; ao contrário, ele se constitui num conjunto de reguladores pré-programados que mantêm o funcionamento do corpo como deve e reage de modo a assegurar a sobrevivência”.

O tronco encefálico é composto pelas seguintes estruturas:

a) Bulbo (medula oblonga), que contém os núcleos para regular a pressão sanguínea e a respiração, bem como processar as informações que vêm dos órgãos dos sentidos que chegam pelos nervos cranianos.

b) Ponte, que contém os núcleos que processam informações de movimento e posição, do cerebelo até o córtex, incluindo aqueles envolvidos na respiração, no olfato e no sono.

c) Mesencéfalo, que contém os núcleos que conectam as várias partes do cérebro, envolvidas em funções motoras (cerebelo, gânglios basais, córtex cerebral).

Cerebelo surge com os primeiros vertebrados. Enquanto sua parte mais antiga mantém o equilíbrio no meio líquido, a segunda fase de sua evolução surge nos peixes, que já possuem nadadeiras e nos quais regula o tônus muscular e a postura. A terceira fase surge com os mamíferos, possibilitando movimentos delicados e assimétricos. Intimamente conectado com o córtex cerebral, também é chamado de cerebelo cortical.

Dobrado em muitos lobos, o cerebelo se localiza acima e por trás da ponte. Nos seres humanos, ele integra a informação que vem do sistema vestibular (ouvido) e que indica posição e movimento, usando esta informação para coordenar os movimentos dos membros. Ao coordenar as sensações motoras, o cerebelo possibilita a ocorrência dos movimentos especializados que não exigem pensamento consciente. Com a prática, escreve Susan A. Greenfield em O Cérebro Humano, estes movimentos são aperfeiçoados, até se tornarem inconscientes, razão pela qual o cerebelo foi apelidado de “piloto automático” do cérebro.

2. Velho cérebro mamífero (límbico)

Nos mamíferos, novas camadas se formaram em torno do tronco cerebral. A primeira delas foi denominada de sistema límbico (da palavra latina limbus, que significa ‘orla’) e acrescentou as habilidades de aprendizagem e memória aos padrões de sobrevivência do cérebro reptiliano.

O velho cérebro mamífero, mais conhecido como cérebro límbico ou cérebro emocional-cognitivo, é responsável pelas emoções e pela memória, trazendo à cena o relacionamento com outros seres. É quase totalmente envolvido pelo córtex cerebral, localizando-se no interior do cérebro, acima do tronco encefálico.

As principais estruturas do sistema límbico são:

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a) Tálamo, duas massas volumosas de substância cinzenta, que conduzem caminhos sensoriais aferentes para as áreas apropriadas do córtex, determinando quais informações sensoriais de fato chegam à consciência; participam da troca de informações motoras entre o cerebelo, os gânglios basais e o córtex.

b) Hipotálamo, que contém os núcleos que controlam as secreções hormonais da glândula pituitária. Governam a reprodução sexual, comer, beber, crescimento e lactação. Está envolvido em todos os aspectos do comportamento, incluindo o ritmo circadiano.

c) Glândula pineal, que é sensível à luz; a escuridão estimula a pineal e, por intermédio do sistema simpático, ativa as gônadas. Está envolvida na transformação da serotonina em melatonina.

d) Giro do cíngulo, envolvido na depressão e na ansiedade.

e) Amídala, envolvido no comportamento social e agressivo.

O funcionamento do cérebro límbico envolve a discriminação entre estímulos positivos e negativos, baseado na experiência do organismo. Sinais oriundos de todas as células do nosso corpo enviam milhões de pedaços de informação molecular-química a cada segundo, que são reunidas no topo (mesencéfalo) do nosso cérebro sensório-motor (reptiliano), em uma passagem chamada de sistema de ativação reticular.

Este portal para o córtex cerebral, que lida com a emoção, o pensamento e a percepção consciente, entre muitas coisas, é um tipo de relógio corporal, com um ritmo de dorme-acorda. Quando o portal se abre, acordamos. Quando o portal se fecha, dormimos. Em caso de emergência, este sistema reticular nos alerta por meio de sinais enviados da amídala, que fica em uma área crítica, entre o antigo sistema reticular, ponto elevado do cérebro sensório-motor reptiliano, e o nível inferior do sistema límbico, relacional-emocional.

A amídala é o foco central de um número de sensores emocionais e age como um editor, lendo o grande fluxo de informação que se move pelo sistema reticular até os níveis superiores do cérebro, para ser processado. Qualquer informação que indique algo danoso, ameaçador ou incomum, é captada pela amídala, que instantaneamente ativa um alerta a ambos os cérebros.

Mas a amídala não apenas escaneia esta imensa quantidade de material, procurando por problemas, sem deixar passar nada, ela também salva o trabalho, guardando seletivamente as impressões negativas, com as quais vai comparar experiências posteriores. O que ela armazena na memória não são conteúdos específicos, apenas ressonâncias ou similaridades emocionais.

A amídala não distingue entre eventos realmente ameaçadores ou simples sustos pela reação inesperada de progenitores. A ressonância não tem uma compreensão lógica de tais nuances de avaliação, tem apenas a ação que emparelha com a frequência de algo similar. Ela faz isto até os três anos de idade, quando mieliniza este arquivo, que então passa a funcionar permanentemente, comparando eventos atuais com os registros e, em caso de situações negativas, informa imediatamente o cérebro.

Mas, quando um alerta negativo alcança nossa percepção consciente, milhões de respostas neurais por todo o corpo-cérebro já foram colocadas em ação. O único recurso disponível para nossa mente reflexiva é a racionalização e o pedido de desculpa a nós ou a outros pelas reações automáticas, que ‘simplesmente acontecem’. O impacto disto é maior do que pensamos, pois tais atos de racionalização dos nossos cérebros mais evoluídos são incorporados a serviço do cérebro inferior de sobrevivência, portanto, são involutivos.

3. Novo cérebro mamífero (neocórtex)

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O neocórtex, ou novo cérebro mamífero, adicionado sobre os dois primeiros, é fundamental como precursor da fala e do pensamento, capaz de produzir uma linguagem simbólica. É onde acontece o processamento da informação, desempenhando um papel fundamental na memória, na atenção, na percepção consciente, no pensamento, na linguagem e na consciência. Em conjunto com o velho cérebro mamífero, associado com as emoções e a memória, está envolvido com habilidades evolutivas avançadas, como o intelecto, a imaginação e a criatividade.

Consiste de uma rede complexa de células nervosas altamente diferenciadas, dispostas em 6 camadas, que encobrem os dois sistemas mais antigos. Cada camada apresenta uma composição neuronal e conectividade diferente. O desenvolvimento destas camadas acontece de dentro para fora, as mais recentes sobrepondo-se às mais antigas. Formam a massa cinzenta composta de neurônios, cujas fibras não são mielinizadas, e se distingue da massa branca subjacente, formada pelos axônios mielinizados, que fazem a interconexão entre as diferentes regiões do córtex e com os neurônios de outras partes do sistema nervoso.

Sua superfície dobra-se sobre si mesma, formando sulcos que contêm 2/3 de toda a massa cortical. O maior destes sulcos é conhecido como fissura cerebral longitudinal e divide o córtex em dois hemisférios, direito e esquerdo. Estes hemisférios são ligados entre si pelo corpo caloso, um espesso feixe de fibras localizado na base desta fissura, que estabelece a comunicação entre os hemisférios e destes com o sistema límbico e o tronco cerebral.

Apesar dos hemisférios parecerem com uma imagem em espelho um do outro, existe uma importante distinção funcional entre eles. Isto resulta em que, apesar deles cooperarem entre si, quando um deles não funciona direito, o outro apresenta certa dificuldade para realizar suas funções.

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Na maioria das pessoas, por exemplo, as áreas que controlam a fala estão localizadas no hemisfério esquerdo, enquanto áreas que governam percepções espaciais residem no hemisfério direito.

Por ser mais espacial, holístico e intuitivo, o hemisfério direito tem a habilidade de trabalhar simultaneamente com um conjunto de unidades em um espaço coerente, flexibilidade esta que lhe permite mudar facilmente de plano, a fim de resolver um problema. Por esta razão, é ativado sempre que precisamos associar algo a experiências que vão além do linguístico.

O hemisfério esquerdo, por sua vez, é linguístico, analítico e racional, trabalhando com relações lógicas e unidades limitadas pelo tempo, ou seja, aborda uma coisa de cada vez, persistindo até concluir o que começou.

Cientistas têm demonstrado que a fala não está localizada apenas no hemisfério esquerdo, visto que o hemisfério direito fornece a intonação, o ritmo e outros aspectos não verbais da linguagem, ou seja, sua melodia. Uma boa comunicação não é uma mera troca de palavras organizadas em sequência, ela sempre envolve o tom e o ritmo em que algo é dito, além de vir acompanhada da linguagem corporal como elemento importante para a conclusão da mensagem.

Isto faz com que uma boa comunicação seja uma tarefa que só pode ser realizada de forma plena, quando ambos os hemisférios estão trabalhando em parceria. Assim, enquanto o hemisfério esquerdo assimila a informação pedaço por pedaço, o hemisfério direito aglutina todos os elementos em unidades significativas.

4. Córtex Pré-frontal (cérebro humano)

Além dos três cérebros já mencionados, em seu livro The Death of Religion and the Rebirth of the Spirit, Joseph Childe Pearce discrimina um quarto e último cérebro adicionado pela evolução: a área cortical pré-frontal, o maior dos lobos cerebrais e que nos eleva acima dos outros animais. Uma formação recente na evolução das espécies, considerado a sede da personalidade e da vida intelectiva, modula a energia límbica e possibilita criar comportamentos adaptativos, ao tomar consciência das emoções. Está localizado na camada mais alta e externa dos dois hemisférios e consiste em uma capa de substância cinzenta de mais ou menos 0,3 cm de espessura.

Este quarto cérebro se apóia nos ombros dos velhos cérebros – o reptiliano, velho mamífero e novo mamífero – sendo criticamente dependente destes. Os cérebros inferiores são os sistemas neurais que nos dão nosso conhecimento do mundo e do corpo, formando a base para o córtex pré-frontal, que surgiu há cerca de 40 mil anos. Com pequenas modificações efetuadas nos cérebros existentes anteriormente, ele é produto e, ao mesmo tempo, produz o amor e o altruísmo, ou seja, o amor por si e pelos demais seres.

O novo córtex pré-frontal forma sua estrutura celular depois do nascimento e termina como a maior estrutura do cérebro. É tão grande que, se formasse sua estrutura no útero, não seríamos capazes de passar pelo canal de nascimento. Apesar de ser bem mais poderoso quando totalmente formado, este novato é bastante frágil até amadurecer totalmente, o que leva aproximadamente 21 anos depois de sua aparição pós-nascimento.

É uma regra geral de que, quanto mais velho é o cérebro, mais durável, instintivo, reflexivo e não negociável ele é, pois não tem a capacidade para linguagem e raciocínio. Quanto mais alto subimos na escala evolutiva, mais frágil é o sistema cerebral, mais tempo leva para se desenvolver, sendo menos instintivo e mais negociável; contudo, é mais poderoso quando completo.

Este quarto cérebro, constituído pela parte dianteira do lobo frontal, está envolvido no planejamento de ações e movimento, assim como no pensamento abstrato. Lida com estratégia: decide que sequências de movimento ativar e em que ordem, além de avaliar o seu resultado. As suas funções parecem incluir o pensamento abstrato e criativo, a fluência do pensamento e da linguagem, respostas afetivas e a capacidade para ligações emocionais, julgamento social, vontade e determinação para agir e atenção seletiva.

Sua atividade aumenta nas pessoas normais somente quando temos que executar uma tarefa difícil, quando temos que descobrir uma sequência de ações que minimize o número de manipulações necessárias. Por todas estas razões e muitas outras, é importante ativarmos este quarto cérebro e usá-lo para transformar o conteúdo arquivado nos cérebros mais antigos, a fim de criarmos um mundo mais harmônico, um mundo mais humano.

Fonte: http://www.monikavonkoss.com.br/expansao-consciente/o-c%C3%A9rebro-humano-estruturas-e-fun%C3%A7%C3%B5es

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